segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cresce aposta de empresas nacionais e estrangeiras na compra de terras e na produção de commodities

Não é de hoje que os mercados de terra e de produção agrícola em geral atravessam um processo de concentração no país. Nos últimos anos, porém, esse movimentou ganhou uma nova roupagem e agentes diferentes. Agricultores tradicionais, incluindo os de grande porte, passaram a conviver com concorrentes nacionais e estrangeiros fincados desde a origem em pilares corporativos e discursos baseados em profissionalização, governança, sustentabilidade e retorno do capital.

Alguns desses \"players\" não têm vínculos diretos anteriores com o campo, enquanto outros vêm de segmentos próximos. Mas todos estão de olho ou na valorização imobiliária em si das terras brasileiras, cujos preços estão em níveis recordes, e na agregação de valor a essas terras com a produção de alimentos, tendo em vista a tendência de crescimento da demanda internacional.

Não há números oficiais sobre a área agricultável total que já está nas mãos desses grupos de empresas, algumas já de grande porte e outras em processo de expansão. Mas, baseados nos projetos mais conhecidos, é consenso entre especialistas que o movimento ainda crescerá muito mais, a depender das discussões em torno do novo Código Florestal e dos limites às aquisições de terras por estrangeiros. Marcos Fava Neves, ex-coordenador do PENSA/USP e criador do centro de pesquisas e projetos Markestrat, por exemplo, estima que a área desses grupos deverá ao menos dobrar de tamanho até 2020.



Levantamento do Valor mostra que cerca de 1,3 milhão de hectares já foram ocupados por grupos com essas características com grãos, fibras e até culturas perenes. Entre eles estão a SLC Agrícola, maior companhia agrícola do Brasil, que pode ser incluída na lista não por ser um \"novo\" player, já que têm décadas de plantio nas costas, mas pelo que agregou a seu negócio com a criação da Land Co, uma companhia especializada na compra e na venda de terras. Na mesma linha está a Radar, criada pela gigante sucroalcooleira Cosan.

O montante de terras sob o tutela dessas corporações poderá avançar para 1,5 milhão de hectares se forem consideradas as áreas do Grupo Vanguarda, do empresário rural Otaviano Pivetta, que poderão ser incorporadas pela Brasil Ecodiesel. A própria Ecodiesel foi \"reinventada\" e ganhou força no mercado de terras e produção após passar ao controle do grupo do investidor espanhol Enrique Bañuelos. Recentemente o conselho da Brasil Ecodiesel rejeitou proposta de incorporação do Vanguarda, mas o assunto segue vivo. Em 2010, a Ecodiesel tornou-se protagonista na \"agricultura corporativa\" ao assumir o controle dos ativos do Grupo Maeda, de quem incorporou 94 mil hectares cultivados. A companhia pode elevar essa área para 320 mil hectares se concretizar o negócio com o Grupo Vanguarda.

Uma das maiores indústrias têxteis do país, a Coteminas surpreendeu ao anunciar no mês passado sua aliança com grupos de expertise em produção e comercialização de grãos. A empresa quer desbravar oportunidades no mercado de terras no Brasil e criou a Cantagalo, na qual detém 50% de participação. A companhia tem meta ambiciosa de sair do zero para cultivar 150 mil hectares em terras próprias, entre grãos e fibras, em dois a três anos.


Silvia Costanti/Valor

Esse modelo traz mais segurança ao investimento estrangeiro, afirma Neves
Muitas dessas empresas já detinham grandes áreas de terras antes do boom imobiliário no campo. Por isso, diz Fava Neves, participaram de um dos melhores momentos da valorização imobiliária rural do país. \"Em 1987, um hectare custava 4 sacas de soja no oeste baiano. Em 1998, essa relação subiu para 15 sacas e neste ano está em 400 sacas\". Mas, apesar de toda a alta, o movimento vai continuar. \"Em uma escala de zero a dez, o movimento de valorização está no nível 6\", afirma.

Obviamente, diz Neves, uma região madura e disputada como Ribeirão Preto (SP), por exemplo, está perto do nível 9 nessa escala. \"Por isso, essas empresas estão atuando em novas fronteiras como Piauí, Maranhão, Tocantins, além de área de Mato Grosso e Bahia que ainda não perderam seu potencial imobiliário\". Assim, esse modelo corporativo tem na terra um pilar estratégico relevante.

Nesse ponto talvez esteja a principal diferença entre essa \"agricultura corporativa\" em formação e as empresas agrícolas criada e conduzidas por grandes produtores rurais. É o caso do Bom Futuro, do maior produtor de soja e algodão do país, Eraí Maggi, que tem na produção agrícola - mais do que na posse da terra - o foco de seu negócio. \"Para a produção de alimentos, o modelo de arrendamento é mais rentável. O de aquisição de terras só tem sentido econômico nessas áreas onde há margens significativas para valorização imobiliária\", diz Maggi.

Independentemente das diferenças dos dois modelos, ambos tendem a deixar o campo mais profissionalizado - o que significa, em tese, mais governança e respeito às práticas ambientais e trabalhistas. A Insolo é uma das que reforçam seu compromisso nessas frentes. A empresa, que partiu para esse modelo depois que seu controle foi adquirido pela família Iochpe, chegou a encarar problemas fundiários no Piauí, berço de seu avanço, no fim do ano passado, mas já tem decisão favorável à sua expansão na Justiça federal.


Segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, a profissionalização do setor faz parte de uma onda iniciada no início da década de 90. A economia brasileira era fechada e protecionista e, entre 1990 e 1996 isso mudou radicalmente. A abertura econômica gerou a primeira onda de exclusão. \"Estima-se que cerca de 200 mil produtores perderam tudo\", lembra Rodrigues.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Investimentos de R$ 7 mi em Sorriso (MT)

A Cooperativa Agroindustrial Celeiro do Norte (Coacen), instalada em Sorriso (460 quilômetros ao norte de Cuiabá), inaugurou ontem sua moderna sede, na qual foram investidos R$ 7 milhões em recursos próprios. A inauguração marca uma nova etapa no processo de crescimento da organização, que foi fundada em 2005, em plena crise do agronegócio, provocada pela queda dos preços da soja no mercado internacional.

Segundo Gilberto Peruzi, presidente da Coacen, a organização surgiu a partir do Condomínio Celeiro do Norte, fundado em 2002 em Sorriso por 15 famílias de produtores rurais, que se uniram para melhor comercializar a compra dos insumos e negociar a venda da produção. Atualmente, a Coacen tem 123 cooperados, que pertencem a 45 troncos familiares. Do grupo original que fundou o condomínio, 11 famílias ainda estão entre os cooperados. Na área cultivada de 260 mil, os produtores associados à Coacen irão produzir nesta safra 580 mil toneladas de soja e 390 mil toneladas de milho safrinha. Peruzi afirmou que a previsão inicial era de colheita de 490 mil toneladas de milho, mas a falta de chuvas a partir de abril frustrou as expectativas.

O dirigente calcula que os cooperados já compraram até agora 120 toneladas de fertilizantes, que correspondem a 80% do volume total que será utilizado para a correção do solo no plantio da próxima safra, que começa na segunda quinzena de setembro. 

domingo, 22 de maio de 2011

Falta de chuva deve afetar safrinha de milho do país

A falta de chuvas em regiões produtoras de milho safrinha do país deve afetar a colheita neste ciclo 2010/11. Ainda não há estimativas precisas, mas produtores de Mato Grosso, por exemplo, falam em perdas de até 50% em relação ao que esperavam produzir.

As áreas mais afetadas são aquelas plantadas mais tarde, no fim de março. "As lavouras [com colheita prevista] para o fim de agosto, começo de setembro, estão fadadas a não colher nada", disse Paulo Molinari, da Safras & Mercado.

A consultoria deve rever sua estimativa de produção para a safrinha de milho no país, que era de 24 milhões a 24,5 milhões de toneladas para algo entre 21 milhões e 22 milhões de toneladas. A safrinha passada ficou em 23 milhões. "Haverá perda, mas não se pode esquecer que a área plantada foi muito grande", observou Molinari.

Pelos números da Safras, a área de safrinha no país foi de 5,35 milhões de hectares no ciclo 2010/11, alta de 10,4% sobre o plantio anterior. Esse avanço foi estimulado pela alta dos preços do grão, puxados pelo mercado internacional e demanda. Em 12 meses, o indicador de preços Esalq/BM&FBovespa para o milho subiu 53,54%, de acordo com cálculo do Valor Data.

No Paraná, o segundo maior produtor de milho safrinha do país, as lavouras mais atingidas pela estiagem estão no norte, pois parte delas foi semeada já na segunda quinzena de março.

Em Mato Grosso, produtores falam em perdas de até 50%, mas o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) ainda não aponta números, apesar de reconhecer que há prejuízos.

Na região de Lucas do Rio Verde, as perdas são da ordem de 50%, segundo o produtor rural Clóvis Cortezia. Para Eraí Maggi, o maior produtor de soja, algodão e milho do país, a queda de produtividade também será grande. A estiagem que persiste desde abril deve reduzir a produção de milho em cerca de 40% no Estado, afirma ele.

"Houve perdas e é irreversível. [Mas] Depende muito da região", afirma Maria Amélia Tirloni, analista de grãos do Imea. O norte e o oeste de Mato Grosso são os mais prejudicados, acrescenta. Ela pondera, no entanto, que se houver chuvas esta semana os efeitos da estiagem podem ser amenizados.

Por enquanto, o Imea mantém a previsão de produção de 7,5 milhões de toneladas em uma área plantada de 1,8 milhão de hectares. O rendimento médio considerado é de 72 sacas por hectare, o mesmo da safrinha da temporada 2009/10. "Deve ser menor do que isso", diz a analista, referindo-se à estimativa de produção.

O fim da colheita da safra de verão e as incertezas em relação à safrinha já afetam os preços, segundo Molinari. No oeste do Paraná, os preços saíram de R$ 25,50 a R$ 26 por saca para R$ 27 a R$ 28, segundo a Safras. Em Mato Grosso, os preços ficaram estáveis na última semana, conforme o Imea. Em um ano, porém, a alta chama a atenção. Segundo o instituto, na região de Sorriso, a saca de milho saiu de R$ 7 em maio de 2010 para R$ 19 atualmente, alta de 271%. (Colaborou Fabiana Batista, de São Paulo) 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Para produtor rural de MT, Código vai fortalecer produção agrícola do país

O produtor rural José Guarino Fernandes, de 46 anos, acredita que o Código Florestal será benéfico aos proprietários de terra, porque servirá para consolidar as áreas que já estão desmatadas e são usadas para cultivo de grãos ou agropecuária. Dono de uma propriedade de 780 hectares, ele utiliza 400 para o plantio de soja e 100 para pastagem, além de manter outros 90 de Área de Preservação Permanente (APP) e 190 de área de reserva legal. Com 35% da área destinada à preservação, ele se enquadra na lei que poderá entrar em vigor.

Para Fernandes, o Código Florestal também proporcionará uma arrecadação maior ao governo com o aumento da produção. “O Código vai solidificar a produção agrícola do país. Sem ele, você perderia área produtiva e teria de convertê-la em reflorestamento, o que logicamente diminui a receita. Se ele não for aprovado do jeito que está, haverá impacto no nosso município, no estado e no Brasil. Nós perderíamos uma grande área produtiva”, afirma.

O produtor acredita que a nova lei dará mais respaldo a quem já desmatou para regularizar sua situação. “Quando eu comprei a propriedade em 1984, eu poderia desmatar 80% da área, mas preferi ficar em 65% por causa da insegurança com as leis, o que dá um pouco mais de 35% de reserva. Agora, eu não pretendo desmatar novas áreas, porque a lei não permite mais o desmatamento”, diz.

Fernandes reclama também da postura de ambientalistas e de órgãos de fiscalização ambiental em relação aos produtores rurais. “Eles tratam o produtor como criminoso, já pressupõem que estamos cometendo uma irregularidade.”

Regras claras
O diretor executivo da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), Seneri Paludo, considera que há dois pontos de avanço no projeto: o primeiro seria a regra mais clara em relação à questão ambiental e o segundo, a consolidação das áreas da produção.

Segundo Paludo, há 30 anos, no Norte de Mato Grosso, agricultores podiam produzir em 50% da área, mas um decreto em 1996 diminuiu o total para 20%. “O produtor que tem a documentação antiga do governo para usar 50% da área teria de reflorestar o local, porque perdeu esse direito com uma determinação repentina. Esse ódigo traz segurança jurídica para os produtores que seguiram a regra no passado continuarem a produção”.

Paludo afirma que não houve anistia, pois já no governo anterior produtores que regularizassem as terras seriam beneficiados com a isenção de multa. “O Código Florestal replica um programa que já existia antes. Não significa que os produtores serão anistiados, mas aqueles que buscarem regularização não receberão multa.”

Em relação às pequenas propriedades, Paludo explica que, na prática, elas já não mantêm as reservas legais por uma questão econômica. “Se [o agricultor] não usar a área, não terá renda para pagar a propriedade e não poderá sobreviver”, afirma.


Incentivo ao desmatamento
O coordenador executivo do Instituto Centro de Vida (ICV), Laurent Micol, afirmou que Mato Grosso passa por uma “corrida ao desmatamento”. Conforme as imagens de satélite de abril, foi possível notar áreas de desmatamento muito grandes no estado.

Para Micol, os pontos mais críticos são os que abordam a anistia a produtores que fizeram desmatamento ilegal até 2008 e a possibilidade de não recuperar áreas de reserva em pequenas propriedades, o que representam um incentivo à irregularidade. “Houve uma retomada repentina do desmatamento no estado por causa do Código Florestal. As pessoas entendem que o produtor que já desmatou ilegalmente se deu bem, porque não vai precisar recuperar a área. E quem não desmatou e permaneceu na lei, não vai poder desmatar e se deu mal.”

Para Micol, em Mato Grosso, há uma pressão pelo desmatamento por conta do preço da terra e da produção. “Os agricultores sabem que há fiscalização, mas a multa é pequena perto do valor dos grãos. Um hectare de soja vale mais que um de floresta.”

O secretário de Meio Ambiente de Mato Grosso, Alexander Torres Maia, admite que houve aumento no desmatamento do estado por causa das suposições em relação à lei. “A expectativa gerada pelo Código Florestal foi muito perniciosa para nós, porque as pessoas achavam que a lei anistiaria todo mundo. Isso jamais foi falado, mas o problema foi a expectativa gerada por toda essa discussão. Com a divulgação dos termos, o desmatamento vai diminuir”, afirmou Maia.

Micol ainda alerta também que existe o risco de grandes produtores dividirem suas propriedades em vários lotes de poucos hectares para que consigam isenção para recompor a reserva legal. Porém, o superintendente do Ibama em Mato Grosso, Ramiro Hofmeister de Almeida Martins-Costa, garante que isso não deve ocorrer.